quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Saudade

Chega mais perto
é tão raro
te encontrar
um destino certo
meio perdido no olhar...
e tua voz suave vibrando calma no meu pensamento
um instante cru
dois passos lentos
um abismo encarando frio
a demora do tempo
em chegar
abrir
estar
Chega mais perto
me deixa sentir teu perfume
a memória inerte e espacial
poeira translúcida
á flor da pele
e teu silêncio
impregnando de azul
cada segundo do dia...

domingo, 12 de julho de 2009

Dúvida

Nada existe.
Enquanto a sombra incide,
desproposital e inultilmente
em meio ao caos...
E tudo paira demoradamente
por sobre nossos lenços
molhados de dúvidas
O silêncio,
O murmúrio caudaloso dos devaneios,
A eterna solidão camuflada
Os sonhos,
todos eles tão reais, beiram o abismo,
Mudos em seus mistérios...
Nada existe.
E meu grito abafado
persiste,
flutuando,
atravessando o ar
e ferindo os tímpanos distraídos
do ouvido de Deus.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Silêncio

Acabou o silêncio
Guardo o meu violão
e desdenho do vento
me deito no chão
O frio rasgando o pensamento
a dúvida deitada ao meu lado
e eu, meio morto,balbuciando segredos
sonhando letras
pesadelos e nomes
Derramando silêncios
meio-termos
desvios e momentos
E em meio ao caos, um sussurro de ausente equilíbrio
e eu te vi andando em meio ás nuvens
cambaleando por entre os anjos
Invento um amor por sobre teu olhar
queria poder te mergulhar
com todos meu planos
e te deitar em minha alma
naufraga e suave
como mil ondas perambulando no mar
à procura de um cais
na suave e maldita luz
do farol de nós
apagado e morto.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Murmúrio

Encarcerado, mutilado e sorridente
por entre os pulmões um sopro de ar quente
derrubando trovoadas de sentidos...
e num canto qualquer da alma, a certeza obsoleta
o vôo tácito...
deflagrando multidões de sonhos
embebidos de nada
derramados ao longo da neve seca da alma.
_Em algumas palavras te decifrei...
_Mas eu não sou minhas palavras...
_Tudo é você, para meus olhos...
_ E ainda assim és cego para o que te assemelha...
Não digo apenas que te sigo, desde o dia de amanhã, retornando por entre as saudades, até chegar sôfrego ao dia de hoje, calmo e tranquilo e depositar, com as mãos fechadas, duas moedas gastas no cérebro enfraquecido do Destino...
E ainda lembrei de alguns versos daquele livro amarelado de poesias, li baixinho escondido por detrás da mesa...
Aquilo te irritou tanto...mas outra vez sorri, e te dei um presente frágil, colorido e sangrando...
todas as minhas almas, embaladas num último acorde que soava tão lindo...e quando decidi morrer, meio cansado dos lábios frios das certezas e das saudades, não esqueci de você...e meus olhos olharam pela última vez para o infinito do teu espírito...calmo e lancinante, como um murmúrio de Deus.

Mistérios

Teus mistérios
indignados
me projetam
e me protegem
sou um Deus amorfo
e teu papo me aborrece
diversas vezes nem te vi chegar
e tua voz soou como um ruído
teu silêncio
meu ouvido
nada me faz estranhar
teu cérebro investigando atmosferas
nem quero saber do teu sarcasmo
do suave e negativo não-concordar
da tua vista cansada
de quando virou as costas pra tudo
e me fez enxergar em mim a segurança muda
de um pálido adormecer de sonhos.
E eu vi teus segredos
um a um
deitados na margem de um rio de fantasias
soltas, dançantes, fluídas
como fadas morimbundas ao luar...
e dancei freneticamente a dança cega
do medo
do sensato medo de ser feliz.

Luciano Pires

quinta-feira, 12 de março de 2009

Planos

Eu nunca desconfiei dos meus planos
não enquanto eles estavam na minha cabeça
perambulando
Um dia se passa e tudo já se torna menos real
como uma fumaça de cigarro num filme noir
e teu beijo num reflexo do reflexo do espelho.
invertida e inadvertidamente.
Fixei a retina, meio desfocada, entre teu lábio e teu sussurrar senil...
tentei adivinhar as frases, ler pensamentos...
mas meu analfabetismo sensorial desandou quaisquer expectativas...
Qual o teu medo?
_Perdi todos eles quando te encontrei...
Então reencontre-os, teu medo alimenta meu desejo.
Cinco minutos depois eu embarcava para a morte.
Uma morte breve e sagrada...
Um caos solitário e banal.
Luciano Pires

domingo, 8 de março de 2009

Fragmentos

Ela acordou sonolenta e decidiu viver:
Me acende um cigarro?
Fumou desgraçadamente meia dúzia deles.
Lavou a alma na pia da cozinha,olhou no espelho e se viu calma...
Encarou fixamente os seus próprio olhos e sentiu o silêncio.
Chorou como de costume, soluçou e gritou.
Queimou o rosto com a ponta do cigarro e engoliu a dor suavemente...
Estou sedenta, disse em meio aos soluços...
Se ajoelhou e ergueu as mãos para o céu e uma gota de medo molhou seu rosto imóvel.
Sentou-se na cama
Fechou os olhos
Pensou por um breve momento em tudo
e comoveu-se por um instante.
Nada poderia mudar o futuro.
Sons de mil vozes se alternavam ,e todas murmuravam sagrados mandamentos que se perdiam no ar...
Ela andou dois passos...
O revólver na mão
O cérebro em frangalhos...
o sangue manchando o tempo
Ela acordou sonolenta e decidiu.

A verdade

De um golpe matei todos os céus
e tuas lágrimas incontidas.
Metamorfoseei-me em sagradas partículas nos profundos abismos de regiões abissais, me decidi,e delicadamente me atirei de encontro ao teu corpo.
Enterrei-me, morto que estava,olhos perfurados,sem nenhum reflexo no espelho,no jardim encantado do teu olhar.
E ainda que eu diga estultícies ou maravilhosos poemas, meu eu permanece sentado em frente à nada, arrastando-se lenta e sorrateiramente por entre os arbustos pálidos de incompreensão.
Um estranho lamento de adeus e dois segundos de apatia me moveram. Nunca indaguei qual o sentido da alma corar quando os sonhos desmoranam? qual a urgência de ser e parametrizar cada sentimento?
De um golpe matei o silêncio e seus asseclas, e eles se ajoelharam perante o indubitável.

Luciano Pires

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Lídia

_Agora uma pausa pra falar sério: mais uma cerveja aqui pra gente, Flávio!
Era sempre o mesmo bar,e sempre a mesma pausa dramática que invariavelmente acontecia.
Dois minutos se passaram,na mesa estavam Jorge, Patrícia,Paulo e Kátia.
_Conhece Glen Benton? Aquele cara daquela banda de death metal ...
_Deicide?
_Isso, isso mesmo, ele não disse que ia se matar com 33 anos?
_Puro marketing.
_Pois eu tenho uma teoria...
_Lá vem o Paulo e suas teorias....fala...pode falar.
_Eu acho que ele vai se matar com 66 anos...pensa só...duplamente satânico, cara,duas vezes a idade de Cristo...
_Cala a boca...
As risadas abafavam o raciocínio de Kátia...hoje era o dia...hoje iria acontecer, custasse o que custasse.
_Licença, vou ao banheiro...Kátia saiu em direção ao banheiro e ainda pode ouvir as risadas de longe...chegou ao banheiro,lavou o rosto e
enxugou devagar as lágrimas...encarou distraidamente o espelho sujo do banheiro e voltou.
Uma gostosa entrou no bar...vestido decotado mostrando os seios, rebolou até o balcão e pediu uma cerveja...
_Você é uma delícia...disse Jorge...
_Mentiroso...disse ela.
_Não costumo mentir pra quem eu não conheço.
_Ela riu. Todo mundo sabe que quando uma mulher ri ou está tirando uma com a nossa cara ou está pronta pra ir pra cama.
Ele levantou e chegou mais perto...Como é teu nome?
_Lídia.
_Lídia não é nome de quem entra a uma hora dessas num bar sujo como esse...
Ela riu de novo, e dessa vez passou a mão pelos cabelos deixando aparecer uma cicatriz no pescoço...ele fingiu não ver.
Kátia revirou os bolsos pra ter certeza que o objeto ainda estava lá...teve certeza, sorriu de satisfação e encarou a tal da Lídia com um ar de desprezo.
Levantou lentamente ,ficou em pé de frente com Lídia e lhe deu um tapa na cara.
Na televisão do bar um clipe do Air Suply...sangue no chão...meia dúzia de palavras cuspidas...e nada era tão explosivo como os olhos de Kátia.
Encarou decisivamente o relógio engordurado do bar, um pôster rasgado do Fagner na parede lhe encarava...ela pensou em correr...mas se deixou cair no chão,
gritando...
Tinha matado Lídia.
Entraram no carro...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ser Feliz

Ser feliz
deixar que o tempo se disfarce
vestido de mar, se revoltando contra as pedras do Destino
A brisa no rosto e o sentimento embarcando, perene
nos quatro cantos da alma.
Ser feliz
é amar o eterno encantamento que é ter você
é sorrir ao fitar teus olhos
e ter no peito o disparo frágil de um coração alerta
e deslumbrado
com a certeza de que é você.
São teus meus pensamentos e
a graça formidável de acordar todo dia e saber que você existe.
Ser feliz
Nadar com braçadas longas
no mar de alegria
que é o teu sorriso.
Saber de ti, imensidão aflorada
lento amanhecer
Findo o dia
os olhos cerrados e tua imagem
desvanecendo devagar e traspassando meus sonhos
Teu riso,tua imagem, tua lembrança
e num grito calmo
enlevado e sutil
digo que te amo
e todo a minha alma se derrama em cores por você.

Te amo, Lú...
Pessoas que pousaram por aqui: